Em pouco mais de seis meses, quatro grandes negócios mudaram o mapa das organizadoras de feiras no mundo. Para quem acompanha fusões e aquisições em eventos, a pergunta deixou de ser se a consolidação continua e passou a ser por que fundos e grandes grupos estão tão interessados em feiras justamente agora.
Segundo análise da Oaklins DeSilva+Phillips, consultoria especializada em fusões e aquisições, cerca de US$ 8,5 bilhões trocaram de mãos no setor desde maio. A compra da Clarion Events pela Informa, por algo próximo de US$ 3 bilhões, foi o quarto grande negócio em seis meses, e a consultoria prevê que não será o último. Apollo, Hellman & Friedman, Searchlight Capital e Informa estão entre os que fizeram movimentos expressivos.
Por que o capital está indo para feiras
A Oaklins aponta um conjunto de forças. A principal, na visão da consultoria, é que os eventos presenciais são pouco vulneráveis à onda de disrupção da inteligência artificial que atinge boa parte dos serviços de marketing. Os outros fatores listados:
- Perda de tráfego de busca: editoras digitais que viram a audiência cair com a IA estão recorrendo a eventos presenciais para alcançar o público.
- Economia dos criadores: as comunidades formadas em torno de criadores de conteúdo querem se encontrar pessoalmente.
- Desejo de encontro: a vontade humana de estar com outras pessoas, que a consultoria trata como fator estrutural.
Segundo a análise, os grandes grupos envolvidos na rodada recente de negócios, como Hyve Group, CloserStill, Forge (nome da fusão entre Questex e Emerald) e Informa, seguem com caixa e dispostos a fazer aquisições complementares.
Ken Sonenclar, diretor de eventos da consultoria, avalia que organizadoras independentes que pensam em vender nos próximos 12 meses precisam otimizar a operação desde já. Vale lembrar que a Oaklins assessora esse tipo de transação, o que faz parte do contexto da leitura.
Fusões e aquisições em eventos: o que os compradores valorizam
A versão aberta da análise não detalha os critérios de avaliação, que ficam num relatório para download. Mas o perfil dos negócios recentes ajuda a entender o padrão. Em geral, o que atrai comprador é o que também sustenta uma feira saudável no longo prazo:
- Recorrência: expositores que renovam edição após edição e receita previsível.
- Liderança de nicho: ser a feira de referência num setor bem definido, em vez de mais uma entre várias.
- Comunidade: público qualificado e engajado ao longo do ano, não só nos dias de evento.
- Dados organizados: histórico de público, vendas e satisfação que permita provar desempenho.
- Independência de pessoas-chave: processos documentados, para que o negócio não dependa só do fundador.
O que isso muda para o mercado brasileiro
Os negócios citados pela Oaklins são internacionais, e a análise não traz dados sobre o Brasil. Ainda assim, o movimento global interessa ao organizador brasileiro, porque mostra com clareza o que o capital valoriza num negócio de feiras e quais qualidades sustentam uma marca no longo prazo.
Para o organizador independente brasileiro, a recomendação vale com ou sem intenção de vender:
- Arrume a casa: contratos, números de público auditáveis e indicadores de renovação de expositores organizados por edição.
- Reduza a dependência: poucos expositores concentrando grande parte da receita pesam contra na avaliação e aumentam o risco do negócio.
- Construa o ano inteiro: conteúdo, encontros menores e relacionamento entre edições fortalecem a comunidade e o valor da marca.
- Conheça o seu valor: entender o que torna a feira atraente ajuda a negociar parcerias, coorganizações ou uma eventual venda em melhores condições.
Uma feira que vale muito para um comprador costuma ser, antes de tudo, uma feira que vale muito para expositores e visitantes.
Fonte: Oaklins DeSilva+Phillips, publicado em 15/10/2026. Texto produzido pela redação da Agenda de Feiras a partir da reportagem original.