Golpes envolvendo eventos não são novidade: sites falsos de inscrição, reservas de hotel fraudulentas e e-mails que se passam pelo organizador são golpes conhecidos. O caso revelado em outubro nos Estados Unidos, porém, inverte a lógica. Em vez de pegar carona numa conferência real, os criminosos criaram o evento inteiro, com site, programação, palestrantes famosos e hotel de prestígio, para usar o convite como isca. É uma conferência falsa construída do zero, e o alvo não era o comprador de ingresso, e sim quem seria convidado a palestrar ou patrocinar.
Segundo a Skift Meetings, o evento se chamava BioTold 2026 e estava anunciado para 5 e 6 de novembro no Omni Boston Hotel at the Seaport. De acordo com a empresa de cibersegurança Proofpoint, era a fachada de uma operação criminosa voltada a profissionais do setor de ciências da vida.
Como o golpe funcionava
Os atacantes enviavam convites para que profissionais da área palestrassem ou patrocinassem a conferência. Quando o destinatário demonstrava interesse, recebia links preparados para instalar programas maliciosos. A Proofpoint atribui a ação ao grupo que chama de TA586, associado à obtenção de acesso inicial a sistemas que depois podem ser explorados por operadores de ransomware, o sequestro de dados.
O site, que já foi retirado do ar, tinha tudo o que se espera de um evento sério: programação detalhada, perfis de palestrantes, entre eles o geneticista George Church, de Harvard, e a Nobel Carolyn Bertozzi, e grandes empresas do setor listadas como patrocinadoras. A inscrição começava em US$ 149, e as cotas de patrocínio chegavam a US$ 25 mil. Quando o Boston Business Journal investigou, representantes de vários palestrantes e patrocinadores anunciados negaram qualquer envolvimento.
O hotel também foi usado sem saber. A rede Omni confirmou à Skift Meetings que o BioTold não foi organizado, sediado nem afiliado ao hotel e que, ao descobrir o uso indevido do nome, acionou o departamento jurídico. A reportagem lembra que palestrantes, patrocinadores e participantes tendem a presumir que um evento anunciado num local conhecido passou por alguma verificação, e é exatamente essa confiança que o golpe explora.
O que dizem os especialistas
Para Ben Taylor, vice-presidente e diretor de resiliência da consultoria de segurança Gate 15, o caso não prova uma escalada de ameaças, mas reforça que o setor de eventos é alvo, como já mostraram incidentes de ransomware envolvendo centros de convenções na América do Norte. A recomendação dele é tratar a conscientização sobre cibersegurança como responsabilidade de toda a equipe, e não só da área de TI.
O que isso muda para o mercado brasileiro
A reportagem não cita casos no Brasil, mas o mecanismo não depende de país: basta um site bem-feito, nomes conhecidos e a promessa de visibilidade profissional. Algumas medidas práticas, parte delas sugeridas na própria reportagem, valem para todos os lados da feira:
- Organizadores: definam canais oficiais e claramente identificados para convites a palestrantes e venda de patrocínio, e publiquem no site do evento quem está autorizado a fazer esses contatos.
- Expositores e patrocinadores: antes de fechar uma cota com um evento desconhecido, confirmem por conta própria com o local anunciado e com outros patrocinadores listados.
- Palestrantes: desconfiem de convites inesperados que exigem baixar arquivos ou clicar em links antes de qualquer confirmação independente.
- Locais de eventos e fornecedores: monitorem o uso do próprio nome em sites de eventos e tenham um contato rápido para confirmar ou negar parcerias.
- Todas as equipes: confirmem pedidos de dados sensíveis por um canal confiável, nunca pela própria mensagem recebida.
Como resume a Skift, nesse caso o ativo mais valioso da conferência falsa não era o ingresso, e sim a confiança. Na avaliação da Agenda de Feiras, para um setor que vive de credibilidade, proteger esse ativo passa a fazer parte do planejamento do evento.
Fonte: Skift Meetings, publicado em 23/10/2026. Texto produzido pela redação da Agenda de Feiras a partir da reportagem original.